Como acabamos assim?

Em 2006, foi publicado um estudo na Holanda acerca de um novo uso para hormônios artificiais: o bloqueio da puberdade de crianças e adolescentes fisicamente saudáveis diagnosticados com o que à época se chamava “transtorno de identidade de gênero”. Até então, estas substâncias, que têm sérios efeitos colaterais, eram utilizadas exclusivamente para questões físicas como o câncer de próstata, a endometriose e a puberdade precoce. O experimento foi financiado pela Ferring Pharmaceuticals, que fabrica um desses hormônios, a triptorrelina, comercializada sob os nomes de “Diphereline” e “Gonapeptyl”:

(Tradução da imagem: “Os autores são muito gratos à Ferring Pharmaceuticals pelo apoio financeiro aos estudos sobre o tratamento de adolescentes com transtornos de identidade de gênero”)

Estudos acerca de crianças e adolescentes diagnosticados com “transtorno de identidade de gênero” indicam que a grande maioria superava o problema antes de chegar à vida adulta. Mas o resultado deste experimento foi radicalmente diferente: “nenhum dos pacientes que foram selecionados para supressão pubertal decidiu parar de tomar o GnRHa”. Ou seja, o uso destas substâncias, ao contrário da terapia tradicional, impediu que as crianças e adolescentes voltassem a se sentir bem com seu sexo biológico. Dez anos depois, médicos britânicos divulgariam resultados semelhantes: dentre os pacientes que não receberam os hormônios, 90,3% se reconciliaram com seus corpos, enquanto  para os demais o final da história foi outro. O estudo revelou que “A persistência [da “disforia de gênero”] é fortemente correlacionada com o início de intervenções físicas como o bloqueador hipotalâmico (t = 0,395, p = 0,007) e nenhum paciente dentro da amostra desistiu depois de começar o tratamento com o bloqueador hipotalâmico. (Leia o estudo completo aqui) Embora a desistência do “tratamento” fosse em tese possível, ela na prática não aconteceu. Pelo contrário: o uso do bloqueador aumentou a chance de o paciente aderir à próxima “fase”, a dos “hormônios cruzados” (aqueles que conferem características superficiais do outro sexo biológico: estrogênio e testosterona sintéticos) e, mais adiante, realizar cirurgias irreversíveis como a retirada de seios, ovários e útero e alterações genitais. Há outros serviços disponíveis no mercado como redução do pomo-de-adão (gogó), feminização facial, implante capilar, remoção de pelos etc.

Criar novos usos para um medicamento, é claro, aumenta suas vendas, e portanto o experimento financiado pela Ferring beneficiou diretamente laboratórios que comercializam substâncias com ações semelhantes à triptorrelina como o acetato de leuprorrelina, a goserelina e o acetato de histrelina. Beneficiou também, indiretamente, empresas que fabricam estrogênio e testosterona sintéticos e especialidades ligadas à medicina transgênera: psiquiatras, psicólogos (as) e psicanalistas (responsáveis por diagnósticos, laudos e avaliações), endocrinologistas (a chamada “terapia hormonal” obriga a consultas com estes profissionais por toda a vida, bem como exames periódicos), cirurgiões plásticos e pediatras, entre outros. No ano seguinte ao da experiência, o chamado dutch protocol ( “protocolo holandês” ) foi exportado para os EUA pelo endocrinologista pediátrico Norman Spak antes mesmo que o novo uso se provasse seguro em humanos e animais e sem aprovação (até hoje) do FDA norte-americano para esse fim. Atualmente, apesar de controversa, a prática também é realizada em países como Inglaterra, Canadá, Austrália e Brasil.

Como a medicina transgênera conseguiu convencer tanta gente a aceitar uma intervenção experimental e agressiva em corpos ainda em formação? Através de um conjunto de medidas que envolveu laboratórios, profissionais de saúde, ativistas LGBT´s, políticos, jornalistas, universidades e outros indivíduos e organizações (certamente, muitos  acreditavam estar fazendo a coisa certa). A abordagem terapêutica tradicional, que oferecia altas chances de cura do “transtorno”, foi acusada de “ultrapassada” em relação ao novo “modelo afirmativo de gênero” (e você pode ver uma crítica a esse “modelo” aqui) – ainda que a maioria dos profissionais não cite explicitamente o nome dessa nova abordagem. A mídia começou a exaltar histórias de “crianças trans” (em geral, meninos que gostam de rosa, bonecas e princesas e meninas molecas de cabelo curto fãs de super-heróis) e a anunciar bloqueadores como “seguros, reversíveis e sem efeitos colaterais” que “permitem às crianças ser quem verdadeiramente são” e “impedem o suicídio”. Foram alteradas diretrizes internacionais e legislações locais para submeter à suposta “terapia hormonal” e até mesmo às cirurgias irreversíveis menores de 18 anos (nos EUA, já se retira os seios de meninas de 13 anos, como mostra este estudo). Facilitou-se a mudança dos documentos (“nome social”) de meninos e meninas, dissociando-os ainda mais de seus corpos, escolas começaram a ensinar sobre “identidade de gênero” e as alunas viram seus banheiros e vestiários serem divididos por “identidade de gênero” em vez de sexo biológico. Introduziu-se punições cíveis, legais e administrativas para quem externa alguma crítica ou reserva; a depender do país (inclusive o Brasil), podemos ser presos (as) por “transfobia”, perder nossa licença profissional e até mesmo perder a guarda de nossos filhos, como acontece no Canadá. Altera-se progressivamente a forma como encaramos garotos e garotas que questionam seu sexo biológico: em vez de vê-los como seres humanos que estão passando por um momento de sofrimento ou confusão que quase sempre é passageiro, fomos levados a afixar neles precocemente o rótulo de “transgênero” e a crer que o problema estaria em seus corpos. Cada vez mais os argumentos racionais cedem lugar aos ideológicos e o diálogo parece impossível.

Mas calma!

Os que ainda acreditam no potencial dos meninos e meninas para amar seus corpos como são e no nosso papel enquanto adultos de ajudá-los nesse processo de maneira amorosa e responsável estão virando o jogo lá fora. Para ver como podemos virar o jogo aqui também,  clique aqui

 

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